A música com a cara latina não deve ter tanto valor comercial, porque ao ver o site das filiais de grandes gravadoras (EMI, por exemplo), vê-se que os artistas nacionais estão ali somente para “ocupar espaço”, pois a intenção verdadeira de uma companhia como esta quando se instala num país como a Colômbia, por exemplo, é a de levar aos habitantes daquela nação os discos dos artistas da sede (Estados Unidos ou Inglaterra) e não a de produzir o trabalho dos artistas locais, fazendo com que seus indivíduos tenham noções básicas sobre a cultura que os cerca, quando deveriam, naturalmente, conhecê-las de forma substancial.
O que há de tão exótico na música latina? Será o charango (na figura abaixo), um instrumento usado na música andina e que é semelhante ao cavaquinho?Seria a antiga música cubana, encabeçada por Ibrahim Ferrer (1927-2005), tão diferente da velha guarda do samba, (que na época de carnaval se assemelham á souvenires vivos)?Há de ser lembrada a nossa semelhança com as demais no quesito “valor histórico”, pois nos países em que houve regimes militares o papel de “voz do povo” ficou destinado ao movimento artístico, em especial, os cantores que tinham de fazer malabarismos em suas letras para não verem suas músicas cortadas pelos censores.
Não só o Brasil utilizou estéticas pop para renovar seu cancioneiro, Cuba também utilizou do mesmo método, através do movimento chamado “Nova Trova”. Surgido na mesma época do tropicalismo e por ele influenciado, essa corrente teve com marca inicial a vinda do cineasta Alfredo Guevara para o nosso país, e, ao ver a nossa produção cinematográfica junto as nossas trilhas sonoras, sentiu-se maravilhado; então, Alfredo montou o “Grupo de Experimentação Sonora” (GES), inicialmente compondo trilhas sonoras para filmes e depois realizando trabalhos que faziam jus ao nome dado ao conjunto.
A “Nueva Trova” (como era nacionalmente conhecida) era um movimento que sofria alto controle do governo e foi exportada por Fidel Castro para os países de regime Socialista sob o rótulo de “Música da Revolução”, Seus principais representantes (Silvio Rodriguez e Pablo Milanés (respectivamente,na foto abaixo), que tinham Chico Buarque e Milton Nascimento como ídolos) obedeciam á rígidas regras visuais e morais, entre elas a obrigatoriedade na opção de ser heterossexual e a não participação em nenhum tipo de militância. O movimento viria a ruir no final da década de 70 devido á desobediência dos artistas em relação aos padrões impostos e a forte pressão do governo.
É interessante todo tipo de troca de experiências, a Nova Trova é uma delas, prova que as multinacionais ainda não tiraram o diálogo entre nós, latinos. Esse intercâmbio aconteceu de maneira mais acentuada nas décadas subseqüentes, na qual podemos citar a parceria entre os Titãs e Fito Paez na música “Go Back”.
Mesmo havendo essa interação entre Brasil, Argentina, Uruguai, México e Chile, ela é insuficiente para estreitar os laços dos vários estilos que compõem a pluralidade da música produzida na América Latina, talvez porque esses encontros mais parecem uma reunião de condomínio onde os moradores não se conhecem e, aos poucos, cada um vai expondo sua casa. Outro fator que pode explicar essa aparente aproximação são as questões diplomáticas que envolvem esses países citados. O Brasil tem uma política externa muito mais amigável com as nações mencionadas do que com os outros vizinhos de continente, sendo melhor manter relações com países Africanos do que com o Peru, Bolívia ou Equador.
Esses fatores reforçam a idéia da formação de metrópoles produtoras de conhecimento. Megalópoles europeizadas como Santiago e Buenos Aires, que atribuem a si próprias o poder de classificar as outras cidades fora de um determinado eixo (além destas duas capitais, Montevidéu, São Paulo e Cidade do México) “como subúrbios intelectuais”.
A inferiorização dos povos economicamente menos desenvolvidos e a imposição dos valores das metrópoles para com os habitantes destes países causa os seguintes efeitos nos seus ouvintes:
- Eles ouvem a música nacional de maneira forçada e preconceituosa, como se tivessem que ouvir por obrigação os artistas locais.
- Estabelecem através da apreciação da música internacional uma relação de idolatria, manifestando enorme satisfação ao adquirirem o trabalho de determinado artista, mais do que se comprassem trabalhos da produção nacional.
- Vêem a música produzida no seu país ou continente como sendo pobre, enquanto a música estrangeira é vista como sofisticada.
Caso semelhante ocorre na Europa, onde Inglaterra, França e Alemanha impõem para o resto do continente (e do mundo) as suas visões sobre as manifestações musicais dos outros países.
Uma das tentativas de começarmos a nossa identificação é enxergar que os Norte-Americanos e Europeus não se sentem confortáveis com as nossas formas musicais, o máximo que pode acontecer com a música latina nesses países é a sua transformação em brinquedo cult nas mãos dos seus críticos. Só para ilustrar esta afirmativa, ao contrário do que nós brasileiros pensamos, o tropicalismo não era visto com tanta importância fora dos limites nacionais, sendo considerado, até entre nossos próprios críticos mais puristas e defensores da bossa-nova, como um movimento musicalmente pobre. A sua riqueza, tal como a conhecemo
s, só foi reconhecida á partir do final da década de 80 quando David Byrne (guitarrista e líder da extinta banda Talking Heads) fundou o selo Luaka Bop Records e passou a compilar e distribuir trabalhos de músicos brasileiros. Á partir daí, artistas de outras partes do globo passaram a dizer que são fãs dos movimentos musicais do Brasil; Bjork, por exemplo, diz admirar o trabalho de Milton Nascimento. Em suma, o tropicalismo foi moldado por David Byrne e passou de world music exótica para febre cult no segmento musical dos meios de comunicação.
Fato que se assemelha a este aconteceu com a música cubana no final da década de 90, com o documentário “Buena Vista Social Club”, e hoje acontece com o Tango, através de artistas como Gotan Project, que mesclam música eletrônica ao tradicional ritmo argentino.
Essas misturas são boas para os consumidores e melhores ainda para indústria cultural, pois ela consegue passar para os ouvintes apenas a representação das formas tradicionais de música, popularizando de maneira distorcida o próprio tango, a salsa e o samba, por exemplo, e ainda por cima, consegue vender seu produto. Essa falsa democratização é vista com maus olhos por Adorno, com razão, pois aquele que ouve este tipo de música modificado dificilmente sentirá curiosidade em conhecer o ritmo misturado á eletrônica em questão:
“A popularização que desloca a atenção para os temas se desvia do essencial, que é o curso estrutural da música como algo total. Ao destacar o atômico, as fragmentadas melodias isoladas, este, que se apresenta como recurso de difusão, sabota o próprio conteúdo que pretende difundir.” In ADORNO, Theodore W. Apud Revista “Educação e Sociedade” n. 56, ano XVII, dezembro de 1996, pág. 388-411.
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